quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Navio de Teseu

Quando me deparo comigo mesmo, frente ao espelho, não me reconheço. Quem se posiciona à minha frente? Alieno-me da imagem que se forma. Onde está quem saiu de casa há mais de uma década e quem é esse que agora assume meu registro geral?
Não que o repudio de todo, mas o que os anos fizeram? Teria orgulho de mim aquele neófito de outros tempos, ou sentiria desprezo? Eu me descasquei de meus dogmas e virei quem deveria ser tal como uma fruta é para sua semente ou acumulei limo de fora como uma pedra no fundo de um rio? Eu virei o produto de um meio do qual desprezava ou ou meio permitiu quem eu fosse quem eu queria ser?
Eu sou a soma das minhas experiências ou o aglomerado de minhas concessões?
Na soma das interrogações sigo sendo apenas um agente observador de mim mesmo, sem saber se mudo o meio ou fui mudado por ele. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Pale blue dot

 Me sento na frente do computador. Lá fora chove, e o barulho da água que meneia calhas e canos me lembra da indiferença das intempéries frente a tudo. Não importa a tristeza ou a solidão que sinto, a água não pede licença, se derrama, se verte e se vai. 

Na minha tela, me sinto menos ínfimo, mas a chuva lembra que quando olho pra cima, os entroncamentos de concreto, que rasgam céus e ferem a terra, me retornam a minha pequenez. A chuva me lembra também que são muitas gotas que caem para que se forme uma bátega, e eu sou só eu.

Lá fora, na maior cidade do hemisfério sul, alguém está sorrindo, enquanto alguém chora. Alguma criança está em sua concepção, enquanto alguém morre. Alguém está tendo a melhor noite da sua vida, enquanto alguém amarga a pior experiência que se pode ter. Todos dançam, mesmo sem dançar, enquanto seu chão gira, num inifito espaço, ermo em torno de uma bola de fogo, longe de qualquer significado além daquele que se quer ter.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Mapas de Lugares Inexistentes

 Não há personagem principal aqui. Esqueça a métrica e a classificação. Esta é a prosopopéia do não-contar.

Inexisto de forma inescusável. A duração de um acorde em Si bemol perante a idade do universo. Um fóton para uma galáxia. Proporções que não se encaixam em sistemas que não se conversam. Pouco, cadente e mesmo assim, cadenciado. Um evento que não se raciocina o por quê de existir .

Um único garfo em uma casa de cinco pessoas. Uma peça de xadrez num jogo de damas. Peça de roupa numa ilha deserta. Desconexo do que se há, pura entropia e caos. Éter, fulgor e chamas num universo gelado.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Mourn Song

 You can drown in the blood of the wars you've caused. I dont give a fuck anymore. I gave you my best, more than my dreams, I gave you my reality. My dreams, my plans, my deepest secrets were yours to take. But it wasn't enough. You've wanted my sanity, my will to move on. Living in your twisted fantasies just for fun while you live in your common life away from what you have created.

My biggest mistake was to offer you my very truth, while all you've wanted was a beatiful lie.


https://app.suno.ai/song/b6905c81-477b-4c1c-9e6e-8568fa34bc7e

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Encerramento

 Lentamente, ele subia os suaves degraus do último andar. O quincalhar de seus ossos eram ouvidos no ecoar da madeira e sua ofegante respiração era a única lufada de ar fresco que aquele lugar via a anos.

Abriu a porta que fazia um incomodo rangido, que ele havia prometido lubrificar a décadas. Os dedos já calejados e tremidos não tinham velocidade para acelerar o barulho, mas ele já não tinha pressa. Arrastou os pés até o fundo da sala, ergueu as caixas de papelão, que revelaram o baú, com um corino marrom, já desbotado do sol e do tempo.

Abriu, e já com a sensação da expectativa, abriu um largo sorriso, como se estivesse abrindo o mais rico tesouro. Dentro, alguns papeis amarelados, manchados do tempo. Cartas, bilhetes e notas. Ele remexia, levantava o mais rápido que podia até achar o que procurava.

Achou. No fundo, bem lá no fundo, estava uma imagem desbotada, quase totalmente apagada, impressa em papel-cartão. Pouco se via, além da silhueta de um jovem rapaz e de uma moça. Ele, de calção e chinelos, cabelos fartos e ela, de maiô petit pois, segurando um grande chapéu. Apesar dos poucos detalhes, via-se areia e um costão de pedras no fundo, além claro, da peça central: Um largo e espaçado sorriso na boca dos dois, daqueles que não se posa por ser espontâneo demais.

Olhava trêmulo para a imagem, mais trêmulo que suas próprias mãos. Seu olhar era perolado, e sem muito controle, começava a marear. O sorriso, agora sem tantos dentes, imitava aquele da foto, de forma quase caricata. Se ajeitou entre a bagunça, e no seu ritmo, sentou-se com os joelhos flexionados. Esticou os braços e colocou a imagem contra a luz. Sorriu mais uma vez, e levou a foto contra o peito. Fechou os olhos profundamente, como se quisesse voltar para aquele momento. Suspirou, sorriu e sentiu paz.





-Vô? Vovô? O que você tá fazendo aqui? - Disse o menino - Vô, que que é isso?

O menino tentou olhar entre o peito do avô o que ele segurava

-Vô quê isso? Não tem nada aqui...


Ele já havia levado consigo.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Ansiolitico

Não é bem silêncio, é ruído sem sentido. Imagens de plano de fundo, uma TV com estática. Tem imagens, trabalho, mas não há nada de relevante. É só standby. Espere o próximo estímulo. 
Só música de elevador, revista Caras na sala de espera. É só o estímulo básico para que sua mente não decole. 
Um homem senta e olha a rua. Não há nada para se ver, mas fita com intensidade, esperando algo que não seja carros e transeuntes. 
São janelas acesas do décimo andar de um prédio num bairro qualquer, estrelas piscando a incontáveis anos-luz daqui. Paredes com grafittis escorridos e mofo, papeis-posteres meio rasgados de um show do mês passado. 
É só existir até que se não exista mais. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Andante

Recebi uma visita mágica esses dias. Uma Bruxa que vinha pelos ventos do Sul, cavalgando asas de metal sobre uma lufada dos ventos austrais. 
De bruxa, apenas o nome e função. Não tinha nariz aquilino, nem rugas, muito menos unhas compridas ou risada maléfica. Seus seios fartos e coxas voluptuosas marcavam o transparente vestido. Seu rosto, era dócil e invocava carinho, ao mesmo tempo que gerava respeito. Nos braços, arcanos indecifráveis para mim, de tempos imemoriais e sabedoria pagã. Sua presença me constrangia, pois sentia que naquele pequeno tamanho, haveriam coisas de me prender e me ensinar. 
Tomando minha, mão, me mostrou o Cosmos. Feito da poeira dos planetas, vi do fim ao começo. Do caos a ordem, todas as coisas apareceram. Átomos surgiam, colidiam, criavam e cessavam. Éramos nada, tão pouco em tão pouco tempo. Vislumbrei as peças do éter que compõem a sinfonia universal, um canto que ainda não havia decifrado e nem sequer ouvido. Mozart e Bach pareciam cantigas próximo ao que vi.
"Esta é a minha mensagem", sussurrou em meu ouvido. "Somos apenas ouvintes do que se passa, meros espectadores desta grande ópera. Minhas linhas de Ley só emanam da força impetuosa do eterno passar. Pó, eu e você, num aguardo do fim e do re-existir. Não existe nada, e tudo existe. Por que temes? Aproveita o que podes, teu sentimento é a tua causa e o teu fim. Crowley disse apenas o óbvio. Somos tudo pois estamos intrinsecamente ligados, e apenas uma semi-coma da canção."
Não era o que acreditava, pois não era o que via. O caos em minha cabeça era apenas o homem sem a capacidade de entender o tempo da música. Ela ria, enquanto valsava ao som do vácuo. "Não temas, sou tua e tu és meu, mesmo que nunca seja tua e tu nunca serás meu. Não vês? é apenas o caminho do que há, caminhando para o que há de ser."
Do jeito que veio, voltou. Me deixou pensando na natureza ínfima do meu ser, enquanto pensava eu ser eterno.