quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Navio de Teseu
sábado, 23 de outubro de 2021
Pale blue dot
Me sento na frente do computador. Lá fora chove, e o barulho da água que meneia calhas e canos me lembra da indiferença das intempéries frente a tudo. Não importa a tristeza ou a solidão que sinto, a água não pede licença, se derrama, se verte e se vai.
Na minha tela, me sinto menos ínfimo, mas a chuva lembra que quando olho pra cima, os entroncamentos de concreto, que rasgam céus e ferem a terra, me retornam a minha pequenez. A chuva me lembra também que são muitas gotas que caem para que se forme uma bátega, e eu sou só eu.
Lá fora, na maior cidade do hemisfério sul, alguém está sorrindo, enquanto alguém chora. Alguma criança está em sua concepção, enquanto alguém morre. Alguém está tendo a melhor noite da sua vida, enquanto alguém amarga a pior experiência que se pode ter. Todos dançam, mesmo sem dançar, enquanto seu chão gira, num inifito espaço, ermo em torno de uma bola de fogo, longe de qualquer significado além daquele que se quer ter.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
Mapas de Lugares Inexistentes
Não há personagem principal aqui. Esqueça a métrica e a classificação. Esta é a prosopopéia do não-contar.
Inexisto de forma inescusável. A duração de um acorde em Si bemol perante a idade do universo. Um fóton para uma galáxia. Proporções que não se encaixam em sistemas que não se conversam. Pouco, cadente e mesmo assim, cadenciado. Um evento que não se raciocina o por quê de existir .
Um único garfo em uma casa de cinco pessoas. Uma peça de xadrez num jogo de damas. Peça de roupa numa ilha deserta. Desconexo do que se há, pura entropia e caos. Éter, fulgor e chamas num universo gelado.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
Mourn Song
You can drown in the blood of the wars you've caused. I dont give a fuck anymore. I gave you my best, more than my dreams, I gave you my reality. My dreams, my plans, my deepest secrets were yours to take. But it wasn't enough. You've wanted my sanity, my will to move on. Living in your twisted fantasies just for fun while you live in your common life away from what you have created.
My biggest mistake was to offer you my very truth, while all you've wanted was a beatiful lie.
https://app.suno.ai/song/b6905c81-477b-4c1c-9e6e-8568fa34bc7e
quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
Encerramento
Lentamente, ele subia os suaves degraus do último andar. O quincalhar de seus ossos eram ouvidos no ecoar da madeira e sua ofegante respiração era a única lufada de ar fresco que aquele lugar via a anos.
Abriu a porta que fazia um incomodo rangido, que ele havia prometido lubrificar a décadas. Os dedos já calejados e tremidos não tinham velocidade para acelerar o barulho, mas ele já não tinha pressa. Arrastou os pés até o fundo da sala, ergueu as caixas de papelão, que revelaram o baú, com um corino marrom, já desbotado do sol e do tempo.
Abriu, e já com a sensação da expectativa, abriu um largo sorriso, como se estivesse abrindo o mais rico tesouro. Dentro, alguns papeis amarelados, manchados do tempo. Cartas, bilhetes e notas. Ele remexia, levantava o mais rápido que podia até achar o que procurava.
Achou. No fundo, bem lá no fundo, estava uma imagem desbotada, quase totalmente apagada, impressa em papel-cartão. Pouco se via, além da silhueta de um jovem rapaz e de uma moça. Ele, de calção e chinelos, cabelos fartos e ela, de maiô petit pois, segurando um grande chapéu. Apesar dos poucos detalhes, via-se areia e um costão de pedras no fundo, além claro, da peça central: Um largo e espaçado sorriso na boca dos dois, daqueles que não se posa por ser espontâneo demais.
Olhava trêmulo para a imagem, mais trêmulo que suas próprias mãos. Seu olhar era perolado, e sem muito controle, começava a marear. O sorriso, agora sem tantos dentes, imitava aquele da foto, de forma quase caricata. Se ajeitou entre a bagunça, e no seu ritmo, sentou-se com os joelhos flexionados. Esticou os braços e colocou a imagem contra a luz. Sorriu mais uma vez, e levou a foto contra o peito. Fechou os olhos profundamente, como se quisesse voltar para aquele momento. Suspirou, sorriu e sentiu paz.
-Vô? Vovô? O que você tá fazendo aqui? - Disse o menino - Vô, que que é isso?
O menino tentou olhar entre o peito do avô o que ele segurava
-Vô quê isso? Não tem nada aqui...
Ele já havia levado consigo.