segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Andante

Recebi uma visita mágica esses dias. Uma Bruxa que vinha pelos ventos do Sul, cavalgando asas de metal sobre uma lufada dos ventos austrais. 
De bruxa, apenas o nome e função. Não tinha nariz aquilino, nem rugas, muito menos unhas compridas ou risada maléfica. Seus seios fartos e coxas voluptuosas marcavam o transparente vestido. Seu rosto, era dócil e invocava carinho, ao mesmo tempo que gerava respeito. Nos braços, arcanos indecifráveis para mim, de tempos imemoriais e sabedoria pagã. Sua presença me constrangia, pois sentia que naquele pequeno tamanho, haveriam coisas de me prender e me ensinar. 
Tomando minha, mão, me mostrou o Cosmos. Feito da poeira dos planetas, vi do fim ao começo. Do caos a ordem, todas as coisas apareceram. Átomos surgiam, colidiam, criavam e cessavam. Éramos nada, tão pouco em tão pouco tempo. Vislumbrei as peças do éter que compõem a sinfonia universal, um canto que ainda não havia decifrado e nem sequer ouvido. Mozart e Bach pareciam cantigas próximo ao que vi.
"Esta é a minha mensagem", sussurrou em meu ouvido. "Somos apenas ouvintes do que se passa, meros espectadores desta grande ópera. Minhas linhas de Ley só emanam da força impetuosa do eterno passar. Pó, eu e você, num aguardo do fim e do re-existir. Não existe nada, e tudo existe. Por que temes? Aproveita o que podes, teu sentimento é a tua causa e o teu fim. Crowley disse apenas o óbvio. Somos tudo pois estamos intrinsecamente ligados, e apenas uma semi-coma da canção."
Não era o que acreditava, pois não era o que via. O caos em minha cabeça era apenas o homem sem a capacidade de entender o tempo da música. Ela ria, enquanto valsava ao som do vácuo. "Não temas, sou tua e tu és meu, mesmo que nunca seja tua e tu nunca serás meu. Não vês? é apenas o caminho do que há, caminhando para o que há de ser."
Do jeito que veio, voltou. Me deixou pensando na natureza ínfima do meu ser, enquanto pensava eu ser eterno.
    

domingo, 1 de novembro de 2020

Contos do cortiço III: O mundo é um moinho

 Já alvorecia. Entre os tropeçares e as dores, ela abriu a rangente porta e descalçou o salto alto. Na pequena geladeira, já amarelada a tantos anos, abriu o freezer e pegou um saco de mercado, estrategicamente deixado com pedras de gelo para esse tipo de situação. Ainda olhou, mas fazia companhia a bolsa térmica improvisada apenas uma garrafa plástica amassada e dois ovos. Suspirou, se jogou na cadeira e se espanou, levando a bolsa a testa.

Já não era mais tão fácil aguentar socos e tapas da vida noturna. Tinha tanta certeza que aquela vida iria mudar em no máximo, um ou dois anos. Não era incomum ouvir das amigas que todo rico quer uma mulher boa de cama, e que quando se cansam das dondocas retocadas e esticadas, escolhem uma dama da noite, de quadris largos e movimentos rápidos. Não poderia ser diferente com ela. Mas dez anos já se passaram, e antes os largos maços de notas que ganhava toda noite com sua juventude, agora davam sorte se eram o suficiente para pagar as contas daquele buraco que acabou indo.

Suspirou novamente, desta vez passou perto demais de morrer. Se não fosse por Geni, sua vizinha, talvez não tivesse escapado da facada daquele bêbado. Estava cansada, cansada demais. Mais um que jurou amores e a tentou matar. O abismo que cavou com os próprios pés era fundo demais pra sair. 

Olhou pra mesa velha de canto. A foto, agora esvaecida, mostrava um senhor magro, negro, de óculos escuros, cabelo impecável e um lindo sorriso aberto. Ainda jovem, ela inclinava o rosto nos ombros do senhor e rodeava o seu braço ao pescoço. Era tão feliz, tão singelo. Um momento eterno em sua memória. "Foi a última vez que o vi sorrindo", recordou. Logo após, contou que ia tentar a vida em outra cidade, com suas amigas. Ele sabia quais eram as amigas, e seu rosto recrudesceu instantaneamente. Não berrou, não a agrediu, mas fez algo pior. Ele tirou os grossos óculos, e lhe disse: O mundo é um moinho.


E realmente era. O mundo é um moinho, e esse moinho havia lhe triturado por inteira.

Grego

 Um dos onírios me visitou esta noite. Morpheu já não se faz presente a muito tempo e phobetor já não me assusta mais. Era phantaso. Com ele, trouxe toda a sorte de desejos. Fulgor, luxúria, insensatez, misturados numa  chama.

Entre os tilintares e os sibilos da dança quente das chamas, sombras se formavam na parede. Seios, curvas, abdomens. Dionísio estava entre nós, numa profana festa carnal, fazendo tudo virar paixão. Não havia ninguém e ainda assim, todos estavam ali. Não havia música, tudo se resumia a canção primitiva das fricções carnais. O suor era o vinho, as coxas eram a carne. 

Se aquilo era não era divino, tampouco era humano. A mente não processava o que via. Uma cena metafísica, que transcende o compreender e o sentir. As horas passavam e o êxtase era infindável. Não havia início, nem fim. Éramos um, e éramos nada. O transe era grande demais para pensar...

E entre os cantos de um sabiá-laranjeira, acordei. Suado, sozinho e pensativo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Rapto de Psiqué

Não gosto de sentir. Sentir dói. 
Sentir não se conecta a ciência, ao pragmatismo que estou tão acostumado, protocolos, padrões.  Não, sentir é um castigo de Prometheu. É o suplício motor das desgraças que a história foi construída.
Existem as regras, as leis, a lógica.  O sentimento é a subversão disso. Um homem sensato bebe cicuta pela verdade. Um sentimental lava o sangue invisível das mãos.  Sentir oprime. Turva. Dura lex sed lex, sentire non est lex.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ritual

Ela desperta a magia. Mas não a wiccana, não o neo-paganismo. Não há dentro de si os guias arcanos europeus, cheios de encantamentos e regras, os grimórios, as leis. Não, não existe regras em sua magia...
Ela desperta o primordial. Seus quadris evocam a magia antiga. O transe, a loucura, frenesi. Sua voz é o barulho do calcar de pés descalços em volta da fogueira, ritmados nas batidas instrumentais da carne. Ela é o batucar das peles curtidas yourubá. A canção do inteligível. O que a humanidade expressava antes mesmo de saber expressar. Ela é a conexão carnal entre o céu e a terra. O profano espiritual, o que há de físico no etéreo.
Ela é Oya. Eu sou Exu.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Wisakedjak

O Corvo olha por cima de sua cabeça. Abre sua negra dorsal contra o Sol, num ato de imponência, eriçando cada betuminosa pena. Na sua arrogância, se emposta perante o astro-rei, o desafiando a uma batalha campal. É ignorado. Grita. Silêncio.
Arremete voo e parte em prol de sua próxima empreitada. Sua forma desenha o preto no azul. Sombra. Luz. Trevas. No chão, é apenas um ponto. No céu é o Eclipse, é o fim de tudo. É o ícaro com nuances de Ragnarok. Mesmo que não dure muito. Seu inimigo o aguarda na próxima hora alta. Sua luta quixotesca não tem fim.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Histórias do Coriço II: Acrilic on Canvas

Esgarça o pincel, aperta a tinta, lampeja a parede com riscos quasi-infantis. DaVinci lhe ensina os passos para pintar sua incomparável musa, Caravaggio lhe ajuda no chiaroscuro de sua difícil mensagem e Michelangelo guia sua mão para a conclusão de seu magnum opus
Aperta os olhos, se afasta. Se aproxima, entre os tiques e as risadas. Olha de perto. Gargalha entre os soluços e lágrimas. Não está bom. Não ainda, não. Não é isso. Ri, contorce de dor. 
Lhe falta os momentos do casamento, dos filhos, da alegria esfuziante. Onde está o seu último achado de semana passada? Revira sua bagunça. Entre os lençóis floridos e pedaços de uma madeira envernizada, acha a caixinha preta, sem muitos detalhes, mas com cheiro de perfume barato. Aplaude, dança uma ciranda em volta de uma fogueira imaginária. Com o braço joga o que está em cima da conturbada mesa, quebrando vidros e estalando metais. Trêmulo, abre seu tesouro: entre mechas de cabelos longos, puxa um pequeno batom. Fixa seu olhar, grita. Roda com cuidado, expõe o carmesim, da mesma cor do sangue sob os seus pés. 
Risca de ponta a ponta. Dois pontos de fuga. É isso. Está pronto. Urra, vocifera, abraça a barriga vazia, está satisfeito do vazio que lhe fez, pronto para ser inundado do amor. 
O velho telefone toca na hora de seu êxtase. Se recompõe, volta a banalidade, puxa o gancho, põe no ouvido. São novamente Eles. Dizem que dessa vez  passou dos limites, estão indo busca-lo com aquele papel que lhe tira do seu amor. Ele abre o maior sorriso, aperta os olhos. Pronuncia em profundo prazer e agonia:

"Sinto muito, eu não moro mais aqui."

Gargalha, se deita. Se encolhe. Dorme. Volta para os braços dela.