domingo, 1 de novembro de 2020

Contos do cortiço III: O mundo é um moinho

 Já alvorecia. Entre os tropeçares e as dores, ela abriu a rangente porta e descalçou o salto alto. Na pequena geladeira, já amarelada a tantos anos, abriu o freezer e pegou um saco de mercado, estrategicamente deixado com pedras de gelo para esse tipo de situação. Ainda olhou, mas fazia companhia a bolsa térmica improvisada apenas uma garrafa plástica amassada e dois ovos. Suspirou, se jogou na cadeira e se espanou, levando a bolsa a testa.

Já não era mais tão fácil aguentar socos e tapas da vida noturna. Tinha tanta certeza que aquela vida iria mudar em no máximo, um ou dois anos. Não era incomum ouvir das amigas que todo rico quer uma mulher boa de cama, e que quando se cansam das dondocas retocadas e esticadas, escolhem uma dama da noite, de quadris largos e movimentos rápidos. Não poderia ser diferente com ela. Mas dez anos já se passaram, e antes os largos maços de notas que ganhava toda noite com sua juventude, agora davam sorte se eram o suficiente para pagar as contas daquele buraco que acabou indo.

Suspirou novamente, desta vez passou perto demais de morrer. Se não fosse por Geni, sua vizinha, talvez não tivesse escapado da facada daquele bêbado. Estava cansada, cansada demais. Mais um que jurou amores e a tentou matar. O abismo que cavou com os próprios pés era fundo demais pra sair. 

Olhou pra mesa velha de canto. A foto, agora esvaecida, mostrava um senhor magro, negro, de óculos escuros, cabelo impecável e um lindo sorriso aberto. Ainda jovem, ela inclinava o rosto nos ombros do senhor e rodeava o seu braço ao pescoço. Era tão feliz, tão singelo. Um momento eterno em sua memória. "Foi a última vez que o vi sorrindo", recordou. Logo após, contou que ia tentar a vida em outra cidade, com suas amigas. Ele sabia quais eram as amigas, e seu rosto recrudesceu instantaneamente. Não berrou, não a agrediu, mas fez algo pior. Ele tirou os grossos óculos, e lhe disse: O mundo é um moinho.


E realmente era. O mundo é um moinho, e esse moinho havia lhe triturado por inteira.

Grego

 Um dos onírios me visitou esta noite. Morpheu já não se faz presente a muito tempo e phobetor já não me assusta mais. Era phantaso. Com ele, trouxe toda a sorte de desejos. Fulgor, luxúria, insensatez, misturados numa  chama.

Entre os tilintares e os sibilos da dança quente das chamas, sombras se formavam na parede. Seios, curvas, abdomens. Dionísio estava entre nós, numa profana festa carnal, fazendo tudo virar paixão. Não havia ninguém e ainda assim, todos estavam ali. Não havia música, tudo se resumia a canção primitiva das fricções carnais. O suor era o vinho, as coxas eram a carne. 

Se aquilo era não era divino, tampouco era humano. A mente não processava o que via. Uma cena metafísica, que transcende o compreender e o sentir. As horas passavam e o êxtase era infindável. Não havia início, nem fim. Éramos um, e éramos nada. O transe era grande demais para pensar...

E entre os cantos de um sabiá-laranjeira, acordei. Suado, sozinho e pensativo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Rapto de Psiqué

Não gosto de sentir. Sentir dói. 
Sentir não se conecta a ciência, ao pragmatismo que estou tão acostumado, protocolos, padrões.  Não, sentir é um castigo de Prometheu. É o suplício motor das desgraças que a história foi construída.
Existem as regras, as leis, a lógica.  O sentimento é a subversão disso. Um homem sensato bebe cicuta pela verdade. Um sentimental lava o sangue invisível das mãos.  Sentir oprime. Turva. Dura lex sed lex, sentire non est lex.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ritual

Ela desperta a magia. Mas não a wiccana, não o neo-paganismo. Não há dentro de si os guias arcanos europeus, cheios de encantamentos e regras, os grimórios, as leis. Não, não existe regras em sua magia...
Ela desperta o primordial. Seus quadris evocam a magia antiga. O transe, a loucura, frenesi. Sua voz é o barulho do calcar de pés descalços em volta da fogueira, ritmados nas batidas instrumentais da carne. Ela é o batucar das peles curtidas yourubá. A canção do inteligível. O que a humanidade expressava antes mesmo de saber expressar. Ela é a conexão carnal entre o céu e a terra. O profano espiritual, o que há de físico no etéreo.
Ela é Oya. Eu sou Exu.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Wisakedjak

O Corvo olha por cima de sua cabeça. Abre sua negra dorsal contra o Sol, num ato de imponência, eriçando cada betuminosa pena. Na sua arrogância, se emposta perante o astro-rei, o desafiando a uma batalha campal. É ignorado. Grita. Silêncio.
Arremete voo e parte em prol de sua próxima empreitada. Sua forma desenha o preto no azul. Sombra. Luz. Trevas. No chão, é apenas um ponto. No céu é o Eclipse, é o fim de tudo. É o ícaro com nuances de Ragnarok. Mesmo que não dure muito. Seu inimigo o aguarda na próxima hora alta. Sua luta quixotesca não tem fim.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Histórias do Coriço II: Acrilic on Canvas

Esgarça o pincel, aperta a tinta, lampeja a parede com riscos quasi-infantis. DaVinci lhe ensina os passos para pintar sua incomparável musa, Caravaggio lhe ajuda no chiaroscuro de sua difícil mensagem e Michelangelo guia sua mão para a conclusão de seu magnum opus
Aperta os olhos, se afasta. Se aproxima, entre os tiques e as risadas. Olha de perto. Gargalha entre os soluços e lágrimas. Não está bom. Não ainda, não. Não é isso. Ri, contorce de dor. 
Lhe falta os momentos do casamento, dos filhos, da alegria esfuziante. Onde está o seu último achado de semana passada? Revira sua bagunça. Entre os lençóis floridos e pedaços de uma madeira envernizada, acha a caixinha preta, sem muitos detalhes, mas com cheiro de perfume barato. Aplaude, dança uma ciranda em volta de uma fogueira imaginária. Com o braço joga o que está em cima da conturbada mesa, quebrando vidros e estalando metais. Trêmulo, abre seu tesouro: entre mechas de cabelos longos, puxa um pequeno batom. Fixa seu olhar, grita. Roda com cuidado, expõe o carmesim, da mesma cor do sangue sob os seus pés. 
Risca de ponta a ponta. Dois pontos de fuga. É isso. Está pronto. Urra, vocifera, abraça a barriga vazia, está satisfeito do vazio que lhe fez, pronto para ser inundado do amor. 
O velho telefone toca na hora de seu êxtase. Se recompõe, volta a banalidade, puxa o gancho, põe no ouvido. São novamente Eles. Dizem que dessa vez  passou dos limites, estão indo busca-lo com aquele papel que lhe tira do seu amor. Ele abre o maior sorriso, aperta os olhos. Pronuncia em profundo prazer e agonia:

"Sinto muito, eu não moro mais aqui."

Gargalha, se deita. Se encolhe. Dorme. Volta para os braços dela.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Doorlock

Dizem que quando o escritor larga a pena, é porquê ele deixou de sofrer. Talvez já tenha sofrido o desencanto e, imerso na banalidade, tenha finalmente esquecido o mundo feérico em que habitava numa solidão quase clausural, e escolhido viver a simplicidade imbecílica da rotina comum. Neste caso, sinto me felizmente, podendo abraçar o comum sem me sentir escarificado por isso. Claro, sinto um tanto quanto saudosista a lembrar da autopenitência de pensar incessantemente nas respostas para aquelas perguntas nunca feitas, ou em buscar razão no irracional. 
Parece um tanto quanto poético, e realmente é. Entretanto, peço ao caro leitor, que leve em consideração a mente infante daquele que vos escreve. Morre-se um pouco sempre que trocamos o pensamento por um protocolo, e disso, eu não quero que conste em minha causa mortis. Porém, sinto pela primeira vez que a tal maturidade me alcançou, com todos os seus flagelos e perjúrios. Mas, seria muita ingratidão se dissesse que com isso, nenhuma felicidade me veio. Estou sim, feliz na simplicidade, na oportunidade de não remoer o ordinário, de ter no trivial, um pouco de conforto.
A outra razão sempre citada pelo fim da inspiração é a ausência de musas. Não Calíope ou Melpômene, mas a fonte dos quais os trovadores bebem para cantarem suas trovas, a Beatriz que faz Dante mergulhar no sétimo círculo infernal. O sofrimento e a não-correspondência do Eros sempre foram as melhores motrizes da escrita. Quando o autor finalmente a tem, sua inspiração não morre, mas é direcionada a aplicação mais justa de todas, a reconstrução de andrógino.
Confesso, me vejo feliz, talvez pleno pela primeira vez. Não estou disposto a me justificar, ou fornecer um documento público de minha vida privada. Mesmo assim, é revigorante poder falar que, das razões mais íntimas para não se escrever, gozo e sofro da mais justa delas.