terça-feira, 28 de outubro de 2025

Cristo

Foi nessa idade que as Cortes Celestiais designaram que Ele teria idade suficiente para realizar o sacrificio supremo e carregar a culpa quasi-infinita de toda a humanidade. Não há mais espaço para meninices.

Ai de mim que cheguei nessa idade e vivo em incontáveis casas decimais abaixo. Ainda temo, sofro, angustio e me sinto imaturo para tomar as decisões mais simples. Oxalá tivesse ao menos tanta certeza do futuro, que me permitisse celebrar o que já deslumbro.

Sempre esperei que uma alavanca mágica me mudasse de um dia pro outro. Que deixaria de gostar das minhas coisas bestas, dos erros púberes, das celebrações toscas. Infelizmente, ou quiçá, felizmente, percebi que tudo se atrela ao maldito movimento imparável em direção à propria cova. E que o pensamento machadista de que sua melhor versão se dá aos vermes é de uma veracidade invejável. 

Perceba, você, o tom de requiém destas palavras, mas que nela, não existe nenhuma supresa. Nestes tempos, apesar de ainda distante, o fim ja é muito mais tangível. Onde era motivo de piada, hoje é motivo de certeza. 

Certeza também, é estar preso na roda da vida. Um Samsara terreno. Repete-se e repetir-se-á os mesmos erros da geração anterior. Entender que você já não é mais uma massa disforme, e sim um oleiro que forma outros vasos, e com suas torpes mãos, vai errar também. E com a maldição da consciência, tentar corrigir o que é incorrigível. 

Ainda há muito para se viver, mas muito menos do que já se teve um dia. Sacrifica-se o cordeiro e vira-se o carneiro. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Ana

 Ás vezes me pego pensando na tia Ana. Foi a primeira vez que vi alguém falando que ia morrer de verdade. Eu tinha 10 anos.

Naquela época, morrer era inconcebível. Não que eu tivesse medo (ainda), eu só não conseguia entender o fato de alguém que não fosse muito velho, morrer. Era estranho, por mais que ainda houvesse um fio de esperança, a certeza dela em saber que ela havia perdido uma batalha.

Tia Ana não era muito querida, verdade seja dita. Uma vez, vi ela espancando minha prima por uma razão trivial. Ela chicoteava com um cinto as costas da filha, que arfava e babava de quatro no chão. Ninguém tinha coisas muito boas pra dizer dela. Ou ao menos, eu não me lembro. Sempre era algo de ser muito resmungona, ou que sofreu muito na vida por causa do meu avô esquizofrênico, que não aceitava ter tido uma filha mulher. Eu não acho que minha tia Ana escolheu construir essa imagem de si, pior ainda, não acho que essa era a imagem que ela queria deixar. Ela tinha um casamento com um maluco que fedia a cigarro e se achava muito bonito, mas que era um alcoolatra. Ele era estranho, mas minha tia morria de amores por ele, mesmo ele a abandonando volta e meia. Depois da morte dela, parecia que ele tinha literalmente derretido. Ficou gordo, banguela e careca. Morreu alguns anos depois, batendo a cabeça na quina da mesa de casa.

Eu não conheci a tia Ana, na verdade. Eu era um fedelho, e além de não ter relevância o suficiente para que alguem quisesse ser conhecido por mim, eu conheci apenas uma faceta da minha tia Ana, que já estava gasta e magoada pelo tempo. E assim, como eu também mostrei pequenas facetas ao mundo, ela deixou pouco demais pra mim. 

Eu tenho certeza que tia Ana era uma pessoa complexa. Ela amou, sentiu, sofreu, tentou dar o seu melhor, ou talvez não. Não tenho como saber. Ela teve duas filhas, assim como eu, e por mais que minhas memórias não sejam as melhores sobre ela, com certeza ela deve ser vista com outro tipo de verniz pela sua prole.

Acho que ninguém pensa muito na tia Ana. Seus ossos foram removidos da tumba da família, pra dar espaço pro seu pai, e depois, irônicamente, seu marido. Tirando suas filhas e talvez seus irmãos, foi uma pessoa que não deixou muitas saudades. Ninguém se debruça nas suas histórias, ou lembra rindo de suas situações cômicas. Talvez alguém tenha conhecido outra Ana, que era mais alegre e mais relevante, mas isso me escapa.

Eu as vezes me vejo na tia Ana. 

Vá em paz, tia Ana.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Revoada

Nas primeiras brumas do ano, ela vem voando para minha janela. Aquela andorinha, tão delicada, de plumas tão elegantes se espreguiça e canta em minha soleira. E eu, bobo que sou, só consigo admirá-la. Como um badulaque de uma rainha ou como os louros de um imperador, ela rouba a minha atenção por inteiro.
"Como foi sua migração desse ano, pequeno pássaro?" pergunto eu, ávido para que ela cante para mim. E ela gorjeia, me conta as coisas que vê no velho continente. Conta que os franceses, quando a veem exultam: "j'adore, j'adore petit oiseau!" , que se engalhofa na cidade das sete colinas e que lá gosta de se aninhar, mas que entende quando Gonçalves Dias dizia que as palmeiras daqui são melhores.
As vezes me frustro quando a andorinha se vai, porque todo ano quando ela peregrina, um pedacinho de mim também vai, e as vezes acho que essa parte de mim morre. Sinto que minha vida é um pouco menos feliz sem ela, que o sol brilha um pouco menos e os dias são mais morosos. Quando ela volta, não vem sem os permeios de suas próprias aventuras. Chega um pouco machucada, um pouco ferida, e tudo que eu gostaria de fazer é cuidar dela. As vezes ela sequer nem quer pousar por aqui, sente que já se aproveitou demais do meu poleiro. Estúpido, deixo meu orgulho falar mais alto, digo a mim mesmo que o pedaço do meu coração que ela leva é grande demais pra se deixar ir.
Ah, mas como me faz falta a andorinha de pernas longas! Como eu conto os dias do calendário, esperando a próxima migração para ouvir a sua cantoria, ver seus lindos penachos. E eu sei, e como sei, que eu nunca teria a coragem ou os meios para engaiolar o mais lindo passarinho que já vi, e com todo prazer, deixo que ela leve uma parte de mim, afinal, esse pedaço sempre foi e sempre será dela.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Paternidade.

 Se eu pudesse escolher uma só palavra para meu epitáfio, escolheria "pai".

A paternidade te transforma com ternura. De forma benevolente, te enxerta com um amor difícil de mensurar e impossível de explicar. Problemas antes insolúveis, viram etapas para um sucesso breve, antes do próximo desafio. Coloca em questão suas certezas e suas definições em xeque. Você precisa evoluir, precisa se resolver dos seus próprios traumas, e com uma ótica nova que alivia tudo, a certeza que o maior sucesso é o sorriso do teu filho.

Camila me ajudou a ser melhor, me desafiou a ser melhor, me instigou a ser melhor. Entender e aceitar a neurodivergência dela me ajudou a entender e aceitar a minha. Me obrigou a desacelerar no que eu queria e a acelerar no que eu precisava fazer. Fiz coisas que meu orgulho me disseram ser impossível e que meu medo me paralisava. Eu sou porque preciso ser.

Também sou filho. Filho do seu Sérgio, do Márcio Cruz. E com a ótica de pai, me coloquei a prova para entender o que sou para ele e o que ele é pra mim. Dos desafios que ele viveu para que eu chegasse onde cheguei, para entender as dificuldades, os erros e os acertos da caminhada. E finalmente me vi compreendendo que pais são apenas filhos com filhos, cheios dos seus traumas e erros e tentando fazer uma versão melhor de si.

Se eu pudesse escolher uma só palavra para meu epitáfio, escolheria "pai". Não porque é a única coisa que sou, mas a única coisa que me orgulho totalmente em ser. Não porque eu me reduzo a isso, mas porque isso me expandiu além de mim.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

O Bibliotecário e o arquivista.

 Dentro de minh'alma existe um arquivista. Seu trabalho é de um esmero sem fim. Tudo que preciso esquecer, ele o faz com maestria. Das dores do passado, dos traumas que vivi e do que quero esquecer, nada foge do sentenciar de sua função. E como todo bom arquivista, nada está perdido, apenas catalogado e empratilheirado numa estante sem fim. O problema é quando esses arquivos voltam a tona, saltam de suas caixas e se espalham pelo chão. O arquivista não se compromete com o encerramento do que ali está, não é sua função. 

Dentro de minh'alma também vive um ávido leitor de vidas. Um bibliotecário, por se dizer. Sedento e ferrenho pra conhecer mais de mim, ele lê tudo o que passa em sua frente. Como uma traça de livros, devora, deglute e refestela no que leu. Nunca saciado, nunca satisfeito. Busca saber onde estou em cada pedaço da história de outras vidas. O bibliotecário sempre se frusta por saber sempre muito dos outros, e pouco do que ele quer encontrar. Percebe que eu, invariavelmente, sou apenas um coadjuvante breve em todos os livros que lê. Passageiro, efêmero. Venho e vou por onde passei. Alguns livros, um capítulo inteiro, outros, uma nota de rodapé. Nada que complete o panorama geral.

O arquivista e o bibliotecário não se entendem. Um tenta arquivar e encerrar a leitura, e o outro quer escancarar o que foi vivido. Um odeia o caos do que surge e o racionaliza, e outro goza das loucuras do escritor. O único livro em que sou personagem principal é o meu, mas este está em centenas, milhares de caixas, catalogadas e cerradas nos recônditos de minh'alma.

sábado, 8 de abril de 2023

Trinta.

Outubro de 1992. Quase 31 anos atrás.  Um pouco mais de doze anos atrás, escrevi aqui um texto, de um menino deslumbrado e preocupado com o mundo. Em outra idade emblemática, me volto para ruminar um pouco do que vivi, aprendi, desaprendi e conheci nessa vida.

A primeira coisa que aprendi é que a vida se importa muito pouco com os seus planos. Existem pessoas que traçam a vida inteira, e conseguem seguir passo a passo. Eu os invejo. Como um barco em tempestade, fui jogado para lugares que nunca imaginei ir sozinho. O garoto que tinha todas as certezas de onde estava saíndo e para onde estava indo não seria capaz de reconhecer este que o substitui. 

Me degladio para escrever esse texto. As memórias que um dia considerei primárias, já não são mais que borrões. Fundamentos e crenças já mudaram tanto que talvez eu devesse fundar o meu próprio secto religioso. Meu altruísmo e positividade pegaram um quê de cinismo e cretinice que se firma como uma pátina pela corrosão da vida real. E isso é tão ruim quanto é bom. Nenhum idealista vive muito tempo no mundo real.

Falando em mundo real, uma das conclusões mais frias que percebi é quão mundana é a minha vida. Provavelmente, se eu morresse hoje, haveria um ou dois dias de luto por um grupo seleto de amigos, e um pesar passageiro na vida de outras. A morte, assunto tabu em outros tempos, fica cada vez mais comum e menos chocante quanto mais o tempo passa. Não serei lembrado pela eternidade, como eu jurava que seria (e talvez, o que me motivou por muito tempo a crescer), e nem serei celebrado por alguém que não tenha me conhecido em vida. E tudo bem, assim foi com 99,9% de todos que aqui estavam. Deve haver algum dispositivo genético que te acalma ao longo do tempo sobre esta questão.

Mas, se for pra falar de algo mais mágico, a paternidade é a única coisa que genuínamente me dá forças pra brigar com esse status quo. Deus, em sua eterna sabedoria, me deu uma filha que me ensina todos os dias. É indissociável falar de mim e não falar do impacto que Camila tem em mim. O autismo dela me dá medo, confesso. Não consigo prever o futuro dela e o único medo que tenho de partir é deixá-la desamparada. É dificil até escrever este curto parágrafo sem ir às lágrimas. 

Interessante pensar nisso e na ciclicidade das coisas. Cada vez mais, me vejo mais parecido com os meus pais, e com o firme pensamento que nossas definições de inovações são patéticas. Homo Sapiens são animais que vivem seu ciclo de vida social quase que de forma idêntica desde sempre. Por mais que os séculos passem, filhos brigam com pais e acabam sendo seu reflexo, em aparência e costume. Me pego sempre imersos em pensamentos filosóficos de butiquim, que por mais geniais que me pareçam no momento, devem ter sido pensados infindas vezes por outros sábios anônimos ao longo das gerações, e mesmo assim, sou incapaz de colocar tudo isso no papel (ou no computador), pois me fogem quando tento racionalizá-los.

Felizmente, este blog ainda é feito para celebrar a minha abjetância. E talvez, em dez ou doze anos eu venha aqui dizer que tudo mudou, caso ainda o mundo esteja de pé. O fato é que hoje, sou mais eu e menos individual que já fui.

domingo, 19 de junho de 2022

Capitulo 1: um assassinato em seropedica

 O voyage branco com detalhes pretos encostou no local próximo as 19:00. O Calor de dezembro estava mais forte que o normal e não devia fazer menos do que 30 graus. Cláudio deu a última puxada no cigarro, ajeitou o distintivo no peito e a pistola no coldre abaixo do braço. Abriu a porta com a sigla DECPA e jogou a bituca pra fora e seguiu para o bar. 

-Inspetor Claudio? - dizia o policial militar, com cara de assustado - eu não sei como explicar isso, mas tem um cara com pernas ao contrário lá dentro morto com as tripas pra fora. A gente ia averiguar, mas mandaram a gente ligar pra sua delegacia - dizia o rapaz com medo de ser taxado de insano

- Fica tranquilo, volta pro batalhão e não precisa preencher nada, o pereira vai tá te esperando pra te auxiliar ai no que você viu. - dizia ele com um ar de naturalidade e ao mesmo tempo de enfado

Pigarreou, cuspiu no chão e entrou no bar. Estava no final de Seropédica e ali qualquer coisa acima de cadeiras de plástico e cerveja barata era artigo de luxo. Tudo estava revirado como se um ciclone tivesse passado por ali. Uma trilha de sangue ia ao banheiro com a porta sanfonada entreaberta. 

O cheiro era forte, e com um lenço que usava para limpar a testa, tampou o nariz. A cena, que parecia de terror medieval, estava ali a quase um dia, no chute dele. As pernas invertidas encaixadas de forma perfeita no quadril como se assim fossem naturalmente e o cabelo de fogo eram o menos estranhos, quando comparados com o sangue, as entranhas e o rosto completamente assustado, travado em um rigor mortis.

-Tempo que não via um curupira, ainda mais morto desse jeito - Resmungou consigo mesmo - Cadê a porra do perito pra fazer o laudo? Dezembro não tem um que salva. 

Tirando a cena dantesca, não parecia ter nada ali que ele pudesse tirar de sobrenatural. A morte claramente foi a muitas horas e tinham poucas pessoas na região. Foi pra fora pegar algum sinal e ligar de novo para o perito.

Ao sair, procurava o número no bolso, imerso na raiva de trabalhar naquela semana, mal percebeu o vulto que o olhava fixamente

-Não imaginava que a Crimes Paranormais ia mandar uma viatura a esse fim de mundo - Dizia a voz do outro lado da rua

Imediatamente sacou sua pistola e olhou em direção ao barranco de onde vinha a voz. Um homem negro, de terno branco, chapéu vermelho, claramente segurando uma bengala enquanto se escorava no banco de madeira improvisado. 

-Sandro. Sabia que você ia estar por aqui. Bora, você tem que prestar algumas explicações lá na DP. - Disse Cláudio, apontando firmemente em direção ao homem que não parecia nada intimidado. 

-Mais respeito, inspetor, me chame de Sr. Cinábrio. Vocês sabem que estão violando o acordo, não é? Esse território é da associação e nós resolvemos nossos próprios problemas. Não que vocês fizessem muita coisa. - Dizia ele tirando um cachimbo do bolso do paletó

-Vai tomar no cu, porra - Disse ele com o dedo no gatilho - Uma morte dessas quebra totalmente o pacto, e você tem sorte de eu não descer aqui com a porra toda e trazer tudo abaixo, agora levanta esse rabo e vem pra ca antes que eu te encha de bala

- Ah, Inspetor Claudio, você não faz ideia do que ta acontecendo não é? - Disse ele acendendo e pitando o cachimbo. - As coisas vão mudar radicalmente, e não vai ter pacto que salve nossa relação 

A luz dos faróis da viatura chegando cegou o inspetor, e ao gritar para abaixar, sentiu um vento no rosto, virou-se e o homem não estava mais ali. Esbravejou e foi em direção ao carro

- O que foi? Soube agora no rádio do caso - Disse o homem de bigodes brancos saindo do carro puxando uma maleta. - O silveira já está chegando, ficou pra trás no sinal, descobriu alguma coisa?

- Saci, doutor escarabel. Essa porra foi um saci, e isso vai dar merda - Disse ele guardando a pistola - Resolvam isso, eu vou voltar pra delegacia, preciso conversar com o delegado. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Gueixa

 Tirei os sapatos, entrei e me ajoelhei. Ela estava vestindo a seda mais pura, com olhos serenos e sorriso dissimulado. Seu rosto branco e sorriso vermelho ornava com aqueles desenhos de plantas exóticas. Sentou ao meu lado e com delicadeza me pegou pelo braço, para que eu sentisse seu calor. Me serviu saquê e pediu que eu falasse da minha vida. Não parecia real, mas sentia vontade de contar cada pedaço pra ela. Troquei segredos enquanto ela me acariciava, e mesmo que ela não falasse muito, eu sentia como estivesse dentro do peito dela. Era confortado pela sua doce presença

Mesmo sendo falso, eu fazia o máximo para me enganar. As poucas palavras que ela me dizia pareciam serem feitas para mim, como se ela estivesse esperando para sempre aquele momento. No meio do meu estado ébrio, senti que havia finalmente redescoberto o amor. Sua mão macia me pegou e levou-me para o quarto. Enquanto ela se despia, sentia algo que a muito não sabia descrever. Seu corpo em mim parecia feito um encaixe de fechadura. Nossas mãos deslizavam-se ao encontro no meio do caminho. Sussurros diziam todas as verdades que queríamos dizer, no meio das mentiras construídas por aquele momento. E seus olhos, ah os seus olhos, olhavam tão fundo nos meus que me desbravaram sem o mínimo pudor. Estava rendido, entregue, prostrado. Eu era dela e de mais ninguém, e se de alguém ela foi, isso não importava, era comigo que ela estava. Sentia a mais profunda plenitude, e aqueles minutos viram dias, semanas, anos, éons.

Eu me levantei, e com o coração pesado, parti, sabendo que ela também iria. Quando retornei a minha cama, sentia um vazio imenso, que só ela seria capaz de preencher. Procurava seu corpo em cada canto, em cada esquina. Como a abstinência do ópio, sua falta me fazia querer arrancar minha pele. Eu não era capaz de viver sem que ela estivesse ali comigo. Precisava de tê-la comigo.

A procurei, e quando a achei, era melhor que não a tivesse encontrado. Seus olhos já não eram mais as infinitas piscinas que olhei um dia, e sim vitrais opacos e destituídos da luz que outrora vi. Seu sorriso agora estava cimentado em músculos herculeanos. Não que eles não existissem, só não eram mais para mim. Eu clamava pela sua voz, mas ela me negava, eu pedia seu toque, mas ela não aceitava.

Eu me ajoelhei para chuva e gritei aos céus, e tudo que ouvia era o silêncio. 


domingo, 16 de janeiro de 2022

Duke of Love

Mais uma noite. Mais um corpo vencido. Ele executa os seus movimentos como se tivesse ensaiado milhares de vezes. Mãos, pele, seios, barrigas, pescoços, genitais. Beijos, carícias, gemidos. Falas no calor da emoção, intensidade, até mesmo uma violência lúdica. Tudo bem feito, da melhor forma, como um chef estrelado em uma cozinha famosa. Rasgam-se elogios, palavras vão-se ao ar.

 Todos saem satisfeitos. Sobem-se as roupas íntimas, as calças e os calçados. Se beijam, marcam de se ver novamente, "vamos comer naquele restaurante lá",  e seguem seu caminho. Eles devem conversar um pouco posteriormente. Qual era bem a história dela? Acho que o pai tinha perdido tudo numa pirâmide. Sei lá, não faz muita diferença. Ele sabe bem o lugar dele na vida dela e vice versa.

Veste sua jaqueta. Caralho, essa cidade sabe bem ser gelada quando quer. Dessa vez não veio de carro, o metrô ia servir bem naquela parte da cidade. Puxa o maço do bolso e risca o fósforo, e ele nem gosta de fumar, mas a fumaça o agrada de uma forma esquisita. "Sistema límbico é o que dizem, ou vidas passadas, vai saber...". Descer do prédio e ir até a esquina pra pegar a última composição. Aproveita e vê o caminho. Milhares de luzes, com vidas, sorrisos, histórias mirabolantes. Alguém deve tá indo dormir e alguém acordando, a vida tá tão confusa nesses últimos anos. Um mendigo ajeita uns papelões pra aguentar a noite. Vai saber o que passou pra ele chegar até ali, provavelmente a vida dele foi um redemoinho gigante. Se compadece, sente que a vida de ambos estão vazias da mesma forma, puxa um trocado do bolso e dá pro senhor, "é pra tomar um que esquente hein?" ri e se vai. 

Viu um bar, desses meio pub, ainda aberto. É domingo e amanhã ele tem que trabalhar, mas e daí? Não que faça muita diferença a cara de merda que ele vai chegar, as transas já não são mais tão eficientes em resolver isso. Entra, senta na bancada e pede uma dose de whisky. Pode ser red label mesmo, é só pra ter algo pra fazer enquanto senta ali. Abre o celular, olha pelas mensagens sem muita pretensão. Alguns grupos falando sobre futebol, mensagens da família que ele jura que amanhã responde e umas cinco garotas mandando "oi", "vc sumiu", "ainda lembra de mim?"'. Já foram, ele não se importa mais o suficiente pra dar qualquer tipo de atenção.

"É igual cocaína, mas a emoção tá só na primeira vez. A graça está no desfolhar, no conquistar, no troféu pra colocar na estante imaginária." Que comparação merda e machista, e ele sabe disso. Só que a pior verdade nisso é saber que igual a droga, cada vez tem menos euforia e mais depressão. O buraco só cresce e ele sabe disso, visto que foi ele que cavou, pá a pá. Ele leva a mão ao cavanhaque e depois ao cabelo. "Que que eu to fazendo? Puta que pariu", resmunga ele. Isso não vai longe, mas já foi muito mais do que ele esperava. É um caminho que afunda toda vez que ele chega em casa e deita sozinho. Sempre com alguém, mas nunca acompanhado. Tudo se foi junto com a inocência.

Sentado olhando pro bar, vê um trio de amigas, rindo com copos e canudos. Uma delas olha pra ele e volta rindo pras amigas. Já viu acontecer antes, sabe onde vai parar isso. De novo, o ciclo de ourobouros, a cobra que morde o próprio rabo. Vira o copo, levanta e vai lá. É o seu trabalho afinal, é o que ele faz de melhor. Nenhum membro da realeza poderia fazer o que ele faz.  

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

ἀποκάλυψις

 Um anjo me visitou em meus sonhos ontem. Eu ouvia o silêncio entre suas palavras, e ele falava muito mais do que se dizia. 

Não era capaz de entender sua figura, apenas o que minha mente me permitia compreender. O que vi era capaz de deixar o mais cético um fervoroso fiel, e o mais são em profunda loucura. O que deveriam ser seus pés brilhavam como cem sóis, e sua boca emanava fogo. Seu corpo não tinha fim e também não tinha começo, e esferas rodavam em seu entorno, com palavras inteligíveis, mas que descreviam o fim, o começo e tudo que no meio havia. Suas asas tocavam céus, terra, os cosmos e tudo que poderia existir dentro do Universo. 

Suas palavras me cortavam como lâminas afiadas. A cada sentença, uma revelação que nem mil livros seriam capazes de conter, as verdades da realidade me foram ditas, mesmo que eu não pudesse compreender. De tudo que ele disse, eu só era capaz de fazer sentido daquilo que mais me doía:

"Quem é você? Qual a sua relevância para aquilo que o Único criou? Se és apenas capaz de ver o que sua vida lhe permite, qual é a verdade absoluta? O que veio antes de você e o que virá depois? Quem é capaz de fazer frente a inexorável força do desconhecido?"


E como ele veio, se foi, sem deixar rastros, exceto minha mente confusa e desesperada por razão.


Quem tem ouvidos, ouça.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Great Unknown

 

Diario de exploração, Codigo XY-32

Registro de campo, data   ⋲ ┯┷ do éon unificado

Pousamos em uma clareira de dimensões aceitáveis no referido planeta, com sinais de mudanças por ação externa intencional. Entretanto não há sinal de formas vivas orgânicas sencientes no local e nosso scanner declara completa ausência de vida orgânica com consciência organizacional acima de delta-épsilon. Sendo assim, o referido local deve ter sido feito por uma espécie agora completamente extinta. 

Avançamos com cautela no local, e não há muito o que se notar de relevante, até se adentrar em uma construção, rústica, de pátio geométrico, o que demonstra que essa civilização tinha noções matemáticas, inatas ou observativas. Dentro do citado pátio, em posição central, encontra-se, revestido de vida orgânica vegetal, o que aparenta ser um monolito. Nos aproximamos e olhamos com cautela, evitando de gerar danos. 

O material é claramente mineral, mas parece ter uma estrutura interna, revelada por raios x, de ligas metálicas que dão suporte aos apêndices, o que prova que sabiam de metalurgia. A imagem formada parece ser uma representação física da espécie que construiu este local. Nossos especialistas ficaram chocados com a biologia, que consiste de 4 apêndices, no qual o espécime se apoiava apenas com dois e manipulava objetos com outros dois, apesar da imagem não estar em posição de uso, aparentando estar em uma posição de descanso. 

 Pela disposição, a imagem sugere que a unidade processadora de informações ficava na parte mais distante do chão. Existem uma série de feixes musculares nesta parte que nossos dados indicam a possibilidade do uso para expressões e comunicação. A escultura tem feições que nossos especialistas, fascinados pela variedade que essa disposição de músculos permitem, descrevem como “contemplação, temor, aguardo ou desconhecimento”. Ao olhar com cuidado, identificamos na base do monolito, a inscrição de algum tipo de mensagem,  claramente prévia a criação do sistema único de linguagem. Se descreve aqui o encontrado:

EXPECTANT IGNOTUM

Nossas bibliotecas avaliaram que se trata de uma linguagem primitiva, e que a mensagem visava passar a mensagem semelhante “para aqueles esperando o desconhecido”.  A equipe ficou genuinamente maravilhada, pois o texto indica uma profunda capacidade de abstração, pouco encontrada pelas civilizações neste quadrante. Inclusive, se propôs a ideia de que este material ainda pode possuir mais informações, que ainda demanda mais análise.


Fim do relatório.




quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Navio de Teseu

Quando me deparo comigo mesmo, frente ao espelho, não me reconheço. Quem se posiciona à minha frente? Alieno-me da imagem que se forma. Onde está quem saiu de casa há mais de uma década e quem é esse que agora assume meu registro geral?
Não que o repudio de todo, mas o que os anos fizeram? Teria orgulho de mim aquele neófito de outros tempos, ou sentiria desprezo? Eu me descasquei de meus dogmas e virei quem deveria ser tal como uma fruta é para sua semente ou acumulei limo de fora como uma pedra no fundo de um rio? Eu virei o produto de um meio do qual desprezava ou ou meio permitiu quem eu fosse quem eu queria ser?
Eu sou a soma das minhas experiências ou o aglomerado de minhas concessões?
Na soma das interrogações sigo sendo apenas um agente observador de mim mesmo, sem saber se mudo o meio ou fui mudado por ele. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Pale blue dot

 Me sento na frente do computador. Lá fora chove, e o barulho da água que meneia calhas e canos me lembra da indiferença das intempéries frente a tudo. Não importa a tristeza ou a solidão que sinto, a água não pede licença, se derrama, se verte e se vai. 

Na minha tela, me sinto menos ínfimo, mas a chuva lembra que quando olho pra cima, os entroncamentos de concreto, que rasgam céus e ferem a terra, me retornam a minha pequenez. A chuva me lembra também que são muitas gotas que caem para que se forme uma bátega, e eu sou só eu.

Lá fora, na maior cidade do hemisfério sul, alguém está sorrindo, enquanto alguém chora. Alguma criança está em sua concepção, enquanto alguém morre. Alguém está tendo a melhor noite da sua vida, enquanto alguém amarga a pior experiência que se pode ter. Todos dançam, mesmo sem dançar, enquanto seu chão gira, num inifito espaço, ermo em torno de uma bola de fogo, longe de qualquer significado além daquele que se quer ter.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Mapas de Lugares Inexistentes

 Não há personagem principal aqui. Esqueça a métrica e a classificação. Esta é a prosopopéia do não-contar.

Inexisto de forma inescusável. A duração de um acorde em Si bemol perante a idade do universo. Um fóton para uma galáxia. Proporções que não se encaixam em sistemas que não se conversam. Pouco, cadente e mesmo assim, cadenciado. Um evento que não se raciocina o por quê de existir .

Um único garfo em uma casa de cinco pessoas. Uma peça de xadrez num jogo de damas. Peça de roupa numa ilha deserta. Desconexo do que se há, pura entropia e caos. Éter, fulgor e chamas num universo gelado.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Mourn Song

 You can drown in the blood of the wars you've caused. I dont give a fuck anymore. I gave you my best, more than my dreams, I gave you my reality. My dreams, my plans, my deepest secrets were yours to take. But it wasn't enough. You've wanted my sanity, my will to move on. Living in your twisted fantasies just for fun while you live in your common life away from what you have created.

My biggest mistake was to offer you my very truth, while all you've wanted was a beatiful lie.


https://app.suno.ai/song/b6905c81-477b-4c1c-9e6e-8568fa34bc7e

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Encerramento

 Lentamente, ele subia os suaves degraus do último andar. O quincalhar de seus ossos eram ouvidos no ecoar da madeira e sua ofegante respiração era a única lufada de ar fresco que aquele lugar via a anos.

Abriu a porta que fazia um incomodo rangido, que ele havia prometido lubrificar a décadas. Os dedos já calejados e tremidos não tinham velocidade para acelerar o barulho, mas ele já não tinha pressa. Arrastou os pés até o fundo da sala, ergueu as caixas de papelão, que revelaram o baú, com um corino marrom, já desbotado do sol e do tempo.

Abriu, e já com a sensação da expectativa, abriu um largo sorriso, como se estivesse abrindo o mais rico tesouro. Dentro, alguns papeis amarelados, manchados do tempo. Cartas, bilhetes e notas. Ele remexia, levantava o mais rápido que podia até achar o que procurava.

Achou. No fundo, bem lá no fundo, estava uma imagem desbotada, quase totalmente apagada, impressa em papel-cartão. Pouco se via, além da silhueta de um jovem rapaz e de uma moça. Ele, de calção e chinelos, cabelos fartos e ela, de maiô petit pois, segurando um grande chapéu. Apesar dos poucos detalhes, via-se areia e um costão de pedras no fundo, além claro, da peça central: Um largo e espaçado sorriso na boca dos dois, daqueles que não se posa por ser espontâneo demais.

Olhava trêmulo para a imagem, mais trêmulo que suas próprias mãos. Seu olhar era perolado, e sem muito controle, começava a marear. O sorriso, agora sem tantos dentes, imitava aquele da foto, de forma quase caricata. Se ajeitou entre a bagunça, e no seu ritmo, sentou-se com os joelhos flexionados. Esticou os braços e colocou a imagem contra a luz. Sorriu mais uma vez, e levou a foto contra o peito. Fechou os olhos profundamente, como se quisesse voltar para aquele momento. Suspirou, sorriu e sentiu paz.





-Vô? Vovô? O que você tá fazendo aqui? - Disse o menino - Vô, que que é isso?

O menino tentou olhar entre o peito do avô o que ele segurava

-Vô quê isso? Não tem nada aqui...


Ele já havia levado consigo.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Ansiolitico

Não é bem silêncio, é ruído sem sentido. Imagens de plano de fundo, uma TV com estática. Tem imagens, trabalho, mas não há nada de relevante. É só standby. Espere o próximo estímulo. 
Só música de elevador, revista Caras na sala de espera. É só o estímulo básico para que sua mente não decole. 
Um homem senta e olha a rua. Não há nada para se ver, mas fita com intensidade, esperando algo que não seja carros e transeuntes. 
São janelas acesas do décimo andar de um prédio num bairro qualquer, estrelas piscando a incontáveis anos-luz daqui. Paredes com grafittis escorridos e mofo, papeis-posteres meio rasgados de um show do mês passado. 
É só existir até que se não exista mais. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Andante

Recebi uma visita mágica esses dias. Uma Bruxa que vinha pelos ventos do Sul, cavalgando asas de metal sobre uma lufada dos ventos austrais. 
De bruxa, apenas o nome e função. Não tinha nariz aquilino, nem rugas, muito menos unhas compridas ou risada maléfica. Seus seios fartos e coxas voluptuosas marcavam o transparente vestido. Seu rosto, era dócil e invocava carinho, ao mesmo tempo que gerava respeito. Nos braços, arcanos indecifráveis para mim, de tempos imemoriais e sabedoria pagã. Sua presença me constrangia, pois sentia que naquele pequeno tamanho, haveriam coisas de me prender e me ensinar. 
Tomando minha, mão, me mostrou o Cosmos. Feito da poeira dos planetas, vi do fim ao começo. Do caos a ordem, todas as coisas apareceram. Átomos surgiam, colidiam, criavam e cessavam. Éramos nada, tão pouco em tão pouco tempo. Vislumbrei as peças do éter que compõem a sinfonia universal, um canto que ainda não havia decifrado e nem sequer ouvido. Mozart e Bach pareciam cantigas próximo ao que vi.
"Esta é a minha mensagem", sussurrou em meu ouvido. "Somos apenas ouvintes do que se passa, meros espectadores desta grande ópera. Minhas linhas de Ley só emanam da força impetuosa do eterno passar. Pó, eu e você, num aguardo do fim e do re-existir. Não existe nada, e tudo existe. Por que temes? Aproveita o que podes, teu sentimento é a tua causa e o teu fim. Crowley disse apenas o óbvio. Somos tudo pois estamos intrinsecamente ligados, e apenas uma semi-coma da canção."
Não era o que acreditava, pois não era o que via. O caos em minha cabeça era apenas o homem sem a capacidade de entender o tempo da música. Ela ria, enquanto valsava ao som do vácuo. "Não temas, sou tua e tu és meu, mesmo que nunca seja tua e tu nunca serás meu. Não vês? é apenas o caminho do que há, caminhando para o que há de ser."
Do jeito que veio, voltou. Me deixou pensando na natureza ínfima do meu ser, enquanto pensava eu ser eterno.
    

domingo, 1 de novembro de 2020

Contos do cortiço III: O mundo é um moinho

 Já alvorecia. Entre os tropeçares e as dores, ela abriu a rangente porta e descalçou o salto alto. Na pequena geladeira, já amarelada a tantos anos, abriu o freezer e pegou um saco de mercado, estrategicamente deixado com pedras de gelo para esse tipo de situação. Ainda olhou, mas fazia companhia a bolsa térmica improvisada apenas uma garrafa plástica amassada e dois ovos. Suspirou, se jogou na cadeira e se espanou, levando a bolsa a testa.

Já não era mais tão fácil aguentar socos e tapas da vida noturna. Tinha tanta certeza que aquela vida iria mudar em no máximo, um ou dois anos. Não era incomum ouvir das amigas que todo rico quer uma mulher boa de cama, e que quando se cansam das dondocas retocadas e esticadas, escolhem uma dama da noite, de quadris largos e movimentos rápidos. Não poderia ser diferente com ela. Mas dez anos já se passaram, e antes os largos maços de notas que ganhava toda noite com sua juventude, agora davam sorte se eram o suficiente para pagar as contas daquele buraco que acabou indo.

Suspirou novamente, desta vez passou perto demais de morrer. Se não fosse por Geni, sua vizinha, talvez não tivesse escapado da facada daquele bêbado. Estava cansada, cansada demais. Mais um que jurou amores e a tentou matar. O abismo que cavou com os próprios pés era fundo demais pra sair. 

Olhou pra mesa velha de canto. A foto, agora esvaecida, mostrava um senhor magro, negro, de óculos escuros, cabelo impecável e um lindo sorriso aberto. Ainda jovem, ela inclinava o rosto nos ombros do senhor e rodeava o seu braço ao pescoço. Era tão feliz, tão singelo. Um momento eterno em sua memória. "Foi a última vez que o vi sorrindo", recordou. Logo após, contou que ia tentar a vida em outra cidade, com suas amigas. Ele sabia quais eram as amigas, e seu rosto recrudesceu instantaneamente. Não berrou, não a agrediu, mas fez algo pior. Ele tirou os grossos óculos, e lhe disse: O mundo é um moinho.


E realmente era. O mundo é um moinho, e esse moinho havia lhe triturado por inteira.

Grego

 Um dos onírios me visitou esta noite. Morpheu já não se faz presente a muito tempo e phobetor já não me assusta mais. Era phantaso. Com ele, trouxe toda a sorte de desejos. Fulgor, luxúria, insensatez, misturados numa  chama.

Entre os tilintares e os sibilos da dança quente das chamas, sombras se formavam na parede. Seios, curvas, abdomens. Dionísio estava entre nós, numa profana festa carnal, fazendo tudo virar paixão. Não havia ninguém e ainda assim, todos estavam ali. Não havia música, tudo se resumia a canção primitiva das fricções carnais. O suor era o vinho, as coxas eram a carne. 

Se aquilo era não era divino, tampouco era humano. A mente não processava o que via. Uma cena metafísica, que transcende o compreender e o sentir. As horas passavam e o êxtase era infindável. Não havia início, nem fim. Éramos um, e éramos nada. O transe era grande demais para pensar...

E entre os cantos de um sabiá-laranjeira, acordei. Suado, sozinho e pensativo.